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O EFÊMERO E O ETERNO

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O balanço range, mas o ramo não verga.   O rosto passa, ora na sombra, ora no sol. Um cheiro de umidade e de luz. Orvalho por cima das violetas. Lesmas por baixo das folhas. Fogem lagartixas pelos tijolos. Uma cigarra desabrocha fogo, de repente, sobre a resina dos cajueiros. Passam borboletas brancas em grupos: ramos de flores voando . A vida vibra. Posso sentir-lhe a pulsação neste trecho de Olhinhos de Gato . A cena está diante de nós com todos os detalhes, vibrando ao mesmo tempo. As cores, os movimentos, os bichos tomam nossos sentidos de tal forma que nos sentimos lá, nesse mundo encantado, repleto de vida, beleza e poesia. Assim é o livro Olhinhos de Gato de Cecília Meireles. Em um primeiro momento, o livro pode parecer uma história infantil, principalmente porque a escritora dedicou-se a essa categoria literária. Entretanto, é um livro que reflete sobre assuntos difíceis como a morte, memórias e família. Seu encanto é justamente tratar temas tão difíceis, de ...

SÁBADO

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Sábado tinha magia. Não era nem domingo, com sua apatia e nem dia de semana com feira, que significava vida que segue. Era um dia especial. Domingo era um dia morno, em que, além da missa nada acontecia. Era dia de preguiça, dia ver televisão de 14 polegadas, azul que ficava na sala, em cima de móvel vermelho, com divisões de vidro onde sua mãe guardava suas louças de chá. A bem da verdade, nunca tomaram chá naquelas coisas. No máximo, sua mãe servia café nas xícaras, quando recebiam visitas. O chá que tomavam lá, era de mercurina ou de chapéu de couro para fazer desaparecerem as perebas das pernas e “purificar o sangue”. Sua mãe possuía um exemplar do livro As Plantas Curam . O que me faz supor que esse costume tenha vindo do seu avô materno, pois ele era curandeiro popular. Sua vida provocou em Joana Carolina um profundo encantamento quando soube, através dos parentes, que ele não só ia às casas das pessoas trabalhando para a cura delas, mas também as levava para sua própr...

O CANTO DO SABIÁ

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Joana Carolina desceu da cama e pisou o assoalho de tábuas, sem fazer barulho. Seus olhinhos sonolentos, quase não se abriam. Na penumbra da casa, caminhou em direção ao quarto de seus pais. Subiu e se enfiou no meio deles. Era de manhãzinha. Lá fora o sabiá cantava, agradecido pela chuva que caíra durante a noite. Bem-te-vis, sanhaços e coleiros- uns de gravatinha e outros, sem- agitavam-se alegres nas bananeiras, mangueiras e laranjeiras e saudavam felizes, o dia claro, límpido após o vendaval. Tudo se renovava. Dentro do quarto, ouvia-se o murmúrio das águas, caudalosas, correndo volumosas abençoadas pelas irmãs que desceram do céu trazendo vida. Em seu ninho, Joana aconchegou-se ao seio materno e a percepção da paz advinda da harmonia da natureza inundou seu coração sobrepondo-se temporariamente à vaga ideia de um temor que, às vezes, cobria seu coração. Pela greta da janela fechada com a tramela, percebeu que era dia, no entanto dentro do quarto, na penumbra reconf...

"Onde estão as coisas dos pobres?" Museus e a pedagogia transformadora de Paulo Freire

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Em 2010 tomei posse como técnica em Assuntos Educacionais no Museu Regional de São João del-Rei, instituição vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus/MinC. Desde então tenho coordenado os trabalhos do setor educativo do museu que a partir de 2011 ganhou uma vaga para estagiário. A instituição tem investido na formação de público e recebe durante todo o ano grupos escolares os quais se constituem como o público de maior expressão. Minha atuação demandou a busca de conhecimentos na área de educação em museus e o estabelecimento de diretrizes e métodos que auxiliassem as práticas nas ações educativas. Foi a partir dessa necessidade que surgiu a ideia dessa pesquisa.   Entendo a visita mediada ao museu como uma oportunidade de troca de experiências e conhecimentos através de diálogos entre os visitantes e o educador, mas também entre os próprios visitantes.   É interessante notar como cada pessoa reage aos objetos a partir da própria bagagem cultural. A leitura da narrativa...

NATAL

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Obrigado! Por vir a esse mundo Nascendo com humildade Ensinando-nos O amor e a fraternidade. Por não desistir de nós, Irmãos ignorantes e imperfeitos, Orientando-nos e guiando-nos No caminho da verdadeira felicidade. Perdão! Se ainda não compreendemos Sua mensagem de amor. E ao Invés de vivermos Em ternura e fraternidade Egoisticamente, Escolhemos as sensações dos Prazeres imediatos. Perdão! Se ainda há aqueles que matam Que odeiam, Se ainda não aprendemos o verdadeiro sentido do amor. Postergamos o divino aprendizado E escolhemos os prazeres superficiais Do mundo material. Perdão! Se na época do Natal Oportunidade de congraçamento De união de forças Para ajuda aos irmãos necessitados Oportunidade de dividir, Não somente as sobras De nossa abastança material, Mas, os sentimentos sublimes Que nos ensinou, De exercitar o amor. Na palavra amiga a quem precisa, No carinho ao idoso Na compreensão aos infelizes. Perdão! Se ao invés de ...

Mulher e Educação

Ná não teve como estudar, embora esse fosse seu maior sonho. Quando adolescente foi para o convento na cidade de Cataguases.  De lá guardava boas lembranças, apesar de nos contar a rigidez das regras impostas pelas irmãs de caridade. Lá aprendeu bordado, costura e muitas outras coisas, muito úteis a uma mulher. Ela gostava do convento, porém sentia muitas saudades da família que ficara em sua cidade natal: sua mãe, seu pai e seus irmãos, principalmente o mais novo que muito chorava de saudades da irmã-mãe (era uma das mais velhas e tinha a responsabilidade de mãe para com os irmãos mais novos). Com o coração abnegado que possuía abriu mão de seu sonho em favor de cuidar de seu irmãozinho, que sofria muito com sua ausência.  Com a sua volta, arrumou um pretendente e casou-se aos 27 anos, uma moça “velha” para os padrões de 1953. Dos dez filhos que Deus lhe concedeu, somente teve uma filha mulher para lhe fazer companhia em seus afazeres. Buscou a sua formação ensinando-lhe b...

UM POUCO DA ALMA DE FORTALEZA

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Há algum tempo surpreendeu-me um visitante do museu, no qual eu trabalho. Era um professor de história, da Espanha, especialista em Colonialismo. Dissera-me ele que estivera em Tiradentes, pelo interesse do tema de sua especialização e de lá seguiria para Ouro Preto. Porém, como em Tiradentes não tem ônibus para Ouro Preto, ele teve que vir a São João del-Rei. Ao visitar o museu eu o encontrei por acaso, pois ele queria conhecer a parte interna do museu. Foi nesse momento que conversando, ele me disse: “Estou surpreso com os museus brasileiros, positivamente. São muito bons! Estou muito feliz de ter vindo” (Ele havia ido a Congonhas e em outros lugares os quais não me lembro agora). Entretanto, o mais surpreendente de sua declaração não se refere a nada disso.  A frase que me causou espanto foi essa: “Estou encantado com São João del-Rei. Estive em Tiradentes e me pareceu uma cidade-museu. Mas aqui, me deparei com uma cidade real”. Fiquei imaginando como um estrangeiro, ...